Para Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance, treinamento e acompanhamento contínuo dão ao compliance uma visão real dos riscos
Em muitas empresas, o mapeamento de conflitos de interesses começa e termina em um formulário. Uma vez por ano, o colaborador informa se tem parentes entre os fornecedores, participação em empresas com as quais a companhia negocia ou alguma atividade paralela que dispute tempo e informação com o trabalho principal. O modelo tem uma fragilidade de origem: depende de que a própria pessoa reconheça que aquela situação configura um conflito.
O conflito de interesses ocorre quando um interesse pessoal do profissional pode influenciar, ou parecer influenciar, uma decisão tomada em nome da empresa. O risco está longe de ser marginal. A edição 2026 do Report to the Nations, da ACFE (Association of Certified Fraud Examiners), que analisou 2.402 casos de fraude ocupacional em 143 países, mostra que os esquemas de corrupção, categoria que inclui o conflito de interesses, estiveram presentes em 45% deles. Em mais da metade das ocorrências, havia falta de controles internos ou desrespeito aos controles existentes.
“A autodeclaração é onde o mapeamento começa. O colaborador só registra aquilo que enxerga como conflito, e muita gente não vê problema em indicar o fornecedor de um primo ou em aceitar o convite de um parceiro comercial. Se a área de compliance trata o formulário como resposta definitiva, passa a trabalhar com uma fotografia incompleta”, afirma Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance, empresa que desenvolve sistema para gestão de compliance.
A omissão, nesses casos, raramente envolve má-fé. Uma relação familiar com um prestador de serviços pode parecer assunto menor para quem a vive, mas expõe a organização a riscos jurídicos, financeiros e de reputação. Há ainda o fator tempo: uma promoção, a chegada de um novo fornecedor ou uma mudança na família criam situações que não existiam quando o formulário foi preenchido, e a declaração anual envelhece antes da campanha seguinte.
É nesse ponto que o treinamento muda o resultado. Segundo o mesmo estudo da ACFE, organizações que capacitaram funcionários e gestores para reconhecer fraudes registraram perda mediana de US$ 84 mil por caso, contra US$ 150 mil entre as que não treinaram nenhum dos dois grupos. Nas empresas que ofereciam essa formação, os empregados tiveram mais que o dobro de probabilidade de fazer um relato.
No Brasil, a frente de capacitação ainda tem espaço para avançar. A 6ª Pesquisa de Maturidade de Compliance da KPMG, feita com 106 organizações, atribuiu nota 3 ao pilar de comunicação e treinamento, em escala de 1 a 5, abaixo da média geral de 3,09, embora mais de 80% das participantes já mantenham planos de capacitação. A exigência também aparece na regulação: o Decreto 11.129/2022, que regulamenta a Lei Anticorrupção, inclui treinamentos e ações de comunicação periódicos entre os parâmetros usados para avaliar o programa de integridade de uma empresa.
Para Erthal, o ganho vem da integração entre as etapas. Quando o colaborador passa por um treinamento antes de preencher o formulário, tende a informar com mais precisão. Quando o acompanhamento é contínuo, mudanças de função ou de fornecedor podem disparar uma nova declaração, sem esperar a campanha do ano seguinte.
“Declaração, treinamento e acompanhamento precisam estar no mesmo fluxo. Assim, a área sabe quem foi capacitado, o que foi declarado e quais casos pedem análise. Com esse histórico reunido, o compliance consegue orientar o colaborador antes que a situação se agrave e demonstra a auditorias e ao conselho que o programa funciona na prática”, diz Erthal.
O tema será discutido na live “Conflito de interesses e treinamentos: como fortalecer a prevenção e a gestão de riscos“, que a clickCompliance promove em 18 de novembro, das 11h às 12h. Erthal recebe os especialistas Kairo Nogueira e Isabella Santos, da empresa, para tratar do impacto dos conflitos de interesses na tomada de decisão e do papel dos treinamentos na prevenção e no tratamento dessas situações.
Serviço
Live “Conflito de interesses e treinamentos: como fortalecer a prevenção e a gestão de riscos”
18 de novembro, das 11h às 12h, online (Zoom) e gratuita
Inscrições na página da live




