Geral

O mundo deseja o corpo brasileiro: os médicos daqui são referência lá fora

O fim do procedimento isolado é a tendência que deve marcar o verão , e, segundo médico que passou por Mônaco, Suíça e Harvard em 2026, muito do que é novidade lá fora já é rotina aqui

W f

O fim do procedimento isolado é a tendência que deve marcar o verão , e, segundo médico que passou por Mônaco, Suíça e Harvard em 2026, muito do que é novidade lá fora já é rotina aqui

Carnaval, praia e verão por boa parte do ano. Poucos países têm uma relação tão próxima com o corpo quanto o Brasil, e isso, segundo o médico Aihan Kirchhoff, ajuda a explicar por que a medicina estética brasileira virou referência mundial. “Quando o assunto é face, abdômen, glúteos e coxas, o mundo olha para cá. E os médicos brasileiros são reconhecidos pelos resultados que entregam e pelo cuidado que têm com o paciente”, afirma.

Os números confirmam o peso do país no setor. Segundo a Pesquisa Global da ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética), divulgada em setembro de 2026 com dados de 2025, o Brasil realizou 3,2 milhões de procedimentos estéticos no ano, atrás apenas dos Estados Unidos, e lidera o ranking mundial de procedimentos cirúrgicos, com 2,3 milhões.

A constatação vem de quem passou o ano circulando pelos principais centros da área. Fundador da AionClinic, em São Paulo, Kirchhoff esteve em 2026 no AMWC, em Mônaco, um dos congressos de medicina estética mais relevantes do mundo; visitou a Clinique La Prairie, em Montreux, na Suíça; palestrou para empresários em um cruzeiro pelo Mar Mediterrâneo, com o tema “A Construção do Belo: da Face ao Corpo”, onde teve a oportunidade de apresentar os protocolos desenvolvidos da face ao corpo na AionClinic, e recebeu o Troféu Destaque pela apresentação; e fez um curso de educação médica continuada da Harvard Medical School sobre lasers, tecnologias e terapias injetáveis. “A cada congresso e curso fora do país, eu confirmo o quanto o Brasil está atualizado. Muito do que é apresentado lá como novidade já faz parte da rotina dos bons consultórios brasileiros.”

Menos é mais, com planejamento

Se uma palavra resume a medicina estética atual, é associação. Em vez de um procedimento isolado, a tendência é combinar recursos em um programa feito sob medida. Entram nessa conta categorias de injetáveis como preenchedores, bioestimuladores de colágeno, biorrevitalizadores e toxina botulínica, associadas a tecnologias com evidência científica, como o ultrassom micro e macrofocado e as radiofrequências.

No cenário global, a toxina botulínica segue como o procedimento não cirúrgico mais realizado, com 7,3 milhões de aplicações feitas por cirurgiões plásticos em 2025, seguida pelo preenchimento com ácido hialurônico, com 4,7 milhões, de acordo com a ISAPS.

“O resultado não está em um procedimento isolado, e sim na combinação deles. Não vem de um produto milagroso, vem do planejamento: escolher o que cada pessoa precisa, em que ordem e em que momento”, explica. Na prática, isso significa menos excesso de produto, mais precisão e um cronograma pensado para cada paciente.

O mesmo levantamento da ISAPS registrou, em 2025, queda de 25% nos tratamentos com ácido hialurônico no mundo, tanto entre homens quanto entre mulheres.

E esse cronograma, de preferência, ocupa o ano inteiro. “O corpo do verão é construído ao longo do ano”, diz o médico. Alguns procedimentos podem ser feitos semanalmente, outros a cada mês ou a cada três meses, sempre dentro de um plano de tratamento individual. Assim, a pessoa mantém o corpo em dia e, quando o verão chega, só precisa de um ajuste final. E para quem deixou para a última hora? “Nunca é tarde para começar. Há procedimentos com resultados visíveis logo após as primeiras sessões. Mas o ideal é o planejamento: cuidar do corpo o ano todo.”

Essa foi uma das principais reflexões discutidas durante o curso em Harvard, que reuniu médicos de diferentes países em um ambiente acadêmico independente, sem patrocínio da indústria. Para preservar a imparcialidade e evitar conflitos de interesse, não era permitido citar marcas ou produtos comerciais. O foco estava no que realmente importa na prática médica: ciência, técnica e indicação.

Essa perspectiva reforça um princípio fundamental: o paciente deve buscar não apenas o nome de uma marca ou produto, mas compreender qual procedimento é indicado para sua necessidade, quais evidências científicas sustentam sua utilização e qual profissional possui o conhecimento e a experiência necessários para realizá-lo. A boa medicina não começa pelo produto, mas pela avaliação criteriosa de cada paciente e pela escolha do tratamento mais adequado para ele.

Saber a hora de parar

Um tema que apareceu com força tanto em Harvard quanto em Mônaco foi o limite. Muitas vezes, o paciente quer fazer tudo de uma vez e cabe ao médico orientar, dizer o que é possível agora e o que precisa esperar. “Não adianta, na véspera do verão, querer fazer milagre com mil procedimentos em um mês. Existe um limite do que dá para fazer com segurança. O melhor é planejar, se preparar ao longo do ano e, perto do verão, fazer apenas os reajustes”, afirma.

Em Mônaco, outro recado ficou claro: antes de tudo, o médico está cuidando de pessoas. A orientação é tratar o paciente como um todo, e não apenas uma característica, o que inclui a saúde mental. “Quando alguém busca uma transformação muito grande, com muita ansiedade, querendo tudo para agora, às vezes há algo por trás. O papel do profissional também é reconhecer isso e orientar o paciente a buscar ajuda.”

A ciência reforça o alerta. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 na revista Aesthetic Orofacial Science, que reuniu 21 estudos e 16.986 participantes, identificou TDC (transtorno dismórfico corporal) em 8,4% das pessoas avaliadas, com prevalência maior entre quem buscava tratamentos estéticos.

Para Kirchhoff, é justamente aí que o Brasil sai na frente. O que hoje é debatido nos congressos internacionais, diz, já faz parte da prática de boa parte dos médicos brasileiros que atuam em medicina estética, sobretudo os formados em universidades com tradição humanista, como ele, que estudou em universidade pública. “Aprendemos desde cedo que a medicina é centrada no paciente. E não existe beleza sem saúde: saúde do corpo, saúde mental e saúde social. As três estão conectadas. Se uma delas não vai bem, em algum momento o equilíbrio se perde. O que lá fora está sendo discutido agora, o médico brasileiro bem formado já pratica no dia a dia.”

A percepção não vem só das viagens. Na AionClinic, Kirchhoff atende com frequência pacientes que vivem fora do Brasil (de Miami, Orlando, Nova Zelândia, França e outros países da Europa), e a queixa que trazem costuma ser a mesma: a dificuldade de encontrar, onde moram, médicos que conversem, que queiram entender o que elas realmente desejam e que se preocupem de verdade com o cuidado. “Muitas vezes, o que a paciente quer é ser escutada. Nem sempre ela sabe explicar o que a incomoda, e nem sempre a resposta é uma grande intervenção”, diz.

O movimento aparece também nos números do turismo de saúde. Estudo da SP Negócios, agência de promoção de investimentos da Prefeitura de São Paulo, estima que a capital paulista recebeu mais de 4,2 milhões de pessoas em busca de tratamento médico em 2024, entre brasileiros e estrangeiros, com volume financeiro de R$ 49,7 bilhões. Os procedimentos estéticos lideram a procura, com 25% das demandas, à frente dos tratamentos cardiovasculares (21%) e da oncologia (15%).

Por isso, para ele, a consulta é o centro do tratamento. É nela que o médico identifica o que é de fato sinal de envelhecimento, o que pode ou não ser tratado e o que está por trás do incômodo. “Há sinais da idade que não vamos tratar, e às vezes o que está desencadeando aquele incômodo é uma ansiedade, uma angústia, que a pessoa nem percebeu. Tudo isso precisa ser analisado com escuta e empatia. É assim que se constrói uma relação médico-paciente de verdade.”

No exterior, quando contava ser um médico brasileiro, encontrava a mesma curiosidade. “As pessoas queriam saber como fazemos. Grande parte dos médicos brasileiros tem escuta ativa e empatia. A gente presta atenção no que o paciente diz, entende a queixa, a dor dele. Isso é muito valorizado lá fora.”

O contraponto, segundo ele, é o atendimento centrado apenas na técnica, algo que se vê lá fora e também no Brasil. “Técnica é fundamental, mas não basta. Quando o foco é só executar o procedimento, sem olhar para o indivíduo, para o resultado final, para o risco de uma cicatriz, é aí que aparecem os exageros.” Por isso, ele reforça a importância de o paciente escolher o profissional pela formação: alguém capaz de avaliar a queixa, o momento de vida, o que faz sentido e o que não faz, e de perceber quando o incômodo tem outra origem, como a ansiedade, e orientar o cuidado adequado.

Do procedimento ao acompanhamento

Outra mudança está no depois. Na visita à Clinique La Prairie, na Suíça, o que mais marcou o médico foi o olhar sobre o percurso de cada pessoa: avaliação, plano individual, associação de terapias e, alcançado o resultado, manutenção e cuidado contínuo. “Medicina levada a sério é medicina centrada no paciente. É estudar cada pessoa, escolher o melhor caminho entre o que existe de disponível e ter tempo de qualidade para conversar, acompanhar e cuidar.”

O corpo como vitrine

É no corpo, justamente onde o Brasil é mais observado, que estão os trabalhos mais conhecidos de Kirchhoff: os métodos Bumbum Aion, Body HD Aion e NOLT Aion, protocolos autorais que utilizam técnicas com injetáveis associadas a tecnologias como campo eletromagnético, ultrassom micro e macrofocado e radiofrequências, entre outras. “Cada paciente tem uma anatomia e um objetivo. O método é um planejamento, não uma receita pronta.”

Os protocolos, que associam tecnologias e injetáveis, atendem pacientes de diferentes idades: de homens a mulheres jovens que emagreceram rapidamente com as chamadas canetas emagrecedoras, até pacientes com mais de 50 anos, que querem viver mais e com qualidade, e lidam com a flacidez e outros sinais do envelhecimento.

Os dois públicos crescem no país. Levantamento da Close-Up International mostra que os medicamentos à base de GLP-1, as canetas emagrecedoras, somaram R$ 4 bilhões em vendas no Brasil entre maio e julho de 2026, com 3,1 milhões de unidades. Nos Estados Unidos, 82% dos cirurgiões membros da ASPS (Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos) relataram ter recebido, em 2025, pedidos de consulta relacionados ao uso desses medicamentos. Ao mesmo tempo, o Brasil envelhece: segundo a PNAD Contínua 2025, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as pessoas com 60 anos ou mais já são 16,6% da população, ante 11,3% em 2012.

Da volta ao circuito internacional, ficou uma certeza: “Ir para fora me mostrou que não preciso trazer um padrão de lá. O Brasil é referência em cuidado e beleza facial e corporal. Precisamos levar o nosso padrão.”

Formado em Medicina pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com intercâmbio acadêmico na Universidade de Coimbra em Portugal, e pós-graduação em dermatologia e cirurgia estética pelo CEMEPE, em Belo Horizonte, Kirchhoff está à frente da AionClinic, no Itaim Bibi, clínica focada em procedimentos estéticos faciais e corporais, tecnologias de ponta, tratamentos personalizados e terapias manuais exclusivas.