Um trio multidisciplinar que passou dois anos construindo antes de vender. A aposta da Grand Thera nasceu de uma dor real, não da moda da IA.
A maioria das startups de inteligência artificial nasce da tecnologia e depois busca um problema para justificar sua existência. A Grand Thera nasceu do movimento oposto. Seus fundadores vinham de trajetórias em matemática, direito e engenharia de dados, e atuavam diretamente sobre uma dor concreta: tomada de decisões em ambientes complexos, com excesso de informação e alta consequência financeira. Com a ascensão da IA generativa, essa dor deixou de ser exclusiva de setores como o financeiro.
Empresas de diferentes setores passaram a buscar apoio para decisões em IAs capazes de gerar conteúdo, mas não necessariamente direção confiável. A Grand Thera surge justamente dessa leitura: o próximo avanço da IA não será apenas responder melhor, mas ajudar grandes empresas a antecipar riscos e tomar decisões de alto impacto financeiro com mais segurança.
Sediada em Florianópolis, a Grand Thera constrói o que chama de Decision-Grade AI, inteligência artificial voltada a decisões críticas em áreas como instituições financeiras, empresas de tecnologia e indústria pesada. A empresa começou a abrir operação comercial no Brasil e nos Estados Unidos depois de dois anos de validação, e chega ao mercado com um ativo raro para o estágio: um trio fundador que conhece o problema não pela teoria, mas por ter passado anos construindo sistemas para decisões de alto impacto.
Sócios que vieram do problema, não da moda
O time fundador combina três origens que raramente se encontram na mesma mesa: matemática e física, direito e finanças, e engenharia quantitativa com machine learning. A composição não é acaso. Em decisões estratégicas, o obstáculo raramente decorre da falta de dados, e sim da distância entre o que a tecnologia consegue consolidar em informações para apoio à decisão e o que um comitê consegue aprovar com segurança. Ter juntos quem entende a matemática, quem entende a estrutura de risco e regulação e quem entende engenharia de IA é o que permite construir um sistema que áreas críticas aceitem usar.
O dado que explica a aposta
A tese da Grand Thera se apoia em um conjunto de estudos e observações diretas do mercado, resumido em um número que virou alerta no meio corporativo. Um levantamento do MIT estimou que cerca de 95% dos projetos de IA generativa nas empresas não geraram retorno financeiro relevante. Para os fundadores, o problema não é a tecnologia, e sim o seu uso: a maior parte do investimento foi para ferramentas que produzem conteúdo, não para plataformas que ajudam a decidir. “O problema das grandes empresas não é a falta de tecnologia, é a dificuldade em transformar o alto volume de dados fragmentados em informação confiável em tempo útil, para direcionamento de decisões estratégicas”, resume Fernando Negrini, CEO da companhia.
Dois anos validando a tese antes de vender em escala
Em vez de lançar rápido e ajustar depois, a Grand Thera passou dois anos em validação antes de abrir operação comercial em escala. Nesse período, desenvolveu a arquitetura que a diferencia da onda de copilotos: matemática e computação avançada no núcleo da decisão, com técnicas como equações diferenciais estocásticas neurais, e a IA generativa reservada à interação e à síntese. O objetivo é escapar da caixa-preta que assusta áreas de risco e rodar dentro da infraestrutura do próprio cliente, sem enviar dados sensíveis para estruturas externas.
A disciplina de construir antes de vender em escala já se traduziu em tração concreta: a empresa contabiliza cerca de R$1,2 milhão em contratos fechados e em execução, além de um pipeline de novas oportunidades comerciais em andamento. E o filtro funciona nos dois sentidos: cerca de R$800 mil em propostas foram deliberadamente não convertidas por demandarem desenvolvimento sob medida, um modelo de software house que foge do padrão de Enterprise SaaS da companhia.
Do laboratório ao caso real
O case mais atual da Grand Thera está ligado à RedMind, holding de tecnologia fundada por Guga Stocco para ampliar o acesso de pessoas e instituições ao mercado de ativos digitais. A Grand Thera fornece a infraestrutura de consolidação de dados e os motores de decisão que sustentam a parte central da plataforma. O projeto começou com a necessidade de desenvolver uma IA específica para avaliação de risco em ativos digitais. Com a evolução do escopo, a tecnologia da Grand Thera passou a apoiar novos produtos da RedMind, incluindo aplicativo, SaaS e frentes para o setor bancário, que serão apresentados oficialmente em agosto.
A lição que fica
A trajetória da Grand Thera aponta um caminho que vale além dela. Em um mercado que correu para adotar IA, e agora descobre que adoção por si só não implica em retorno, a diferença tende a ficar com quem entende o problema antes de escolher a ferramenta. Construir a partir da dor real, com um time que já viveu essa dor, e ter a paciência de validar antes de escalar pode ser menos vistoso que um lançamento rápido. Mas quando o mercado exige confiança e resultados, o caminho escolhido pela Grand Thera se mostra promissor.